terça-feira, 31 de julho de 2012

A pequena caixinha chamada escola — uma resposta à psicóloga Rosely Sayão

Dra. Rosely Sayão:
Em teu texto publicado no jornal Folha de São Paulo, chamado Fora da panelinha, é admirável tua preocupação com as crianças que vivem em famílias que optaram pela educação em casa, aquilo que em outros países é conhecido como homeschooling. Tuas afirmações são espantosas e merecem ser bem avaliadas.
Como psicóloga, sabes que qualquer ser humano, seja adulto ou criança, necessita de instrução e de direcionamento. Por si mesmo, o homem tende a se perder. Tu mesma adquiriste teus conhecimentos aprendendo de teus mestres e lendo autores que, antes de ti, descobriram o que hoje tu podes saber simplesmente correndo teus olhos pelas letras de um livro.
Onde está, portanto, o conhecimento? Em edifícios criados para receber centenas ou milhares de crianças de uma única vez? Não, e tu sabes disso. O conhecimento está nos livros, nos trabalhos, nas publicações, nos registros das experiências e dos pensamentos. Também está na cabeça dos mestres que possuem a capacidade de transmiti-lo com sabedoria e paciência.
No entanto, quem escolhe os livros e os professores que ensinarão nossos filhos nas escolas? E qual o método de ensino? E o acompanhamento, quem fará? Ora, se eu posso escolher, segundo meu entendimento sobre qual o melhor material a ser usado, a capacidade do mestre que ensinará meus filhos, segundo o método que eu entendo mais eficiente, por que devo ser obrigado a depositar minhas crianças em um prédio no qual elas serão apenas mais uma dentro de um universo gigantesco, aprendendo não de acordo com suas capacidades e possibilidades, mas conforme uma média de conhecimento que possa abarcar todos que lá estão?
E que tu não venhas me dizer que os filhos não me pertencem e que eu não tenho direito de direcionar suas vidas. Tens filhos? Sabes o que é isso? Se tens, os colocaste em uma escola que tu acreditas ser a melhor, que dará melhor ensino e os preparará melhor para o futuro. O que é isso senão o direcionamento de suas vidas? Não estás fazendo com tuas crias o que um proprietário faz com seus bens, aplicando onde acreditas ser o mais rendoso? Os motivos que me fazem preferir que eu escolha a forma como meus filhos vão estudar são os mesmos que tu tens para escolher a escola dos teus.
A diferença entre nós é que tu crês que a escola é realmente um lugar de conhecimento. Como típica acadêmica, prostra-te diante deste ídolo de pedra, que promete, sem cumprir, um futuro brilhante para aqueles que ingressam em seus templos. Tu és, inclusive, cria desse lugar. Como uma sacerdotisa, embriagada pelo vinho do falso conhecimento, inebriada pelas visões quiméricas de catedráticos charlatões, acreditas que fora desse seu universo não há conhecimento, não há sequer vida que valha alguma coisa.
Por isso tu afirmas que aqueles que optam pelo homeschooling o façam por medo do conhecimento. Em tua sandice universitária, vês esses como ignorantes, retrógrados, que temem expor seus filhos a novas teorias, novas formas de pensar. Diante disso, só posso te fazer uma simples perguntinha: de onde tiras tais parvoíces?
Em teu orgulho acadêmico, acreditas sinceramente que uma escola, simplesmente por ser escola, é a depositária do verdadeiro conhecimento. É óbvio que acreditas que todas as teorias, todas as descrições históricas, todas as hipóteses levantadas em sala de aula são inatacáveis. Para ti, o conhecimento é algo estático, propriedade de um grupo, principalmente daqueles que possuem a autorização governamental para fornecer diplomas.
Não percebes que o conhecimento é algo que está além dos muros da academia. Que são os homens que o carregam e o transmitem. Por isso, não entendes que a opção desses pais é, ao contrário do que afirmas, possibilitar que suas crianças tenham acesso a um conhecimento mais amplo, mais sólido e mais profundo do que as escolas podem oferecer.
Defendes as escolas como se elas fossem o paraíso do saber. Com isso, mostras que, além de não compreender o que é o conhecimento, ainda tens o olhar obscurecido para a realidade. Nunca ouvistes falar da péssima formação dos professores, da falta de estrutura das escolas públicas, da ausência de método no ensino e da grade curricular limitadíssima imposta pelo governo? A que escola te referes? Talvez, daquelas que apenas pessoas abastadas podem dar a seus filhos, das quais apenas as mensalidades são de valor maior que o salário de 90% dos brasileiros. Agora entendo porque acreditas que a educação em casa é o mesmo do que a perda do convívio social. Para ti, mulher de posses, há apenas dois ambientes sociais para teus filhos: a família e a escola. Não conheces nada além disso. Para ti, uma criança viver socialmente é ingressar em prédios que parecem mais presídios, cercados de seguranças e arame farpado, sendo monitorada todo o tempo, com horário para todas as atividades. Este é o teu conceito de liberdade, não é? Bom, é bem parecido com as utopias totalitárias imaginadas durante mais de quatro séculos até hoje.
Nunca passou pela tua cabeça que quando escolhes uma dessas escolas estás tentando dar a melhor instrução e o melhor ambiente para teus próprios filhos? E que diferença há entre isso e decidir dar toda a educação fora desse ambiente cerrado? Não, os adeptos do homeschooling não temem o conhecimento, mas querem oferecer para seus filhos mais conhecimento do que qualquer escola pode dar. Tu queres passar a idéia de que são estes os entenebrecidos, quando, na verdade, o que eles buscam é a verdadeira luz do saber.
Tu, com estas divagações, pelo contrário, demonstra-te preconceituosa. O que dizes parece demonstrar uma afeição à diversidade e à universalidade, mas denota, apenas, que não consegues pensar nada fora da pequena caixinha chamada escola. Devias saber que se há algum conhecimento na escola, ele veio de fora e não foi criado em sala de aula. Ora, se ele reside fora dos prédios escolares, por que não buscá-lo diretamente em suas fontes?
E ainda tens coragem de te mostrares amante da liberdade? Acusas os pais adeptos da educação em casa de a ofenderem ou temerem, mas não percebes que és tu que a odeia? Tu não consegues aceitar que os pais possam ter liberdade de escolher a melhor maneira de educar seus filhos. Nem de que esses filhos tenham a liberdade de aprender diferente e além do que se ensina dentro dos currículos herméticos determinados pelo Estado. Se tu amas a liberdade, se te delicias com a diversidade, por que tens tanta dificuldade de aceitar que pais tenham a liberdade de decidir pelo melhor para seus filhos e por que não aceitas a diferença que há entre a visão de mundo deles e a tua?
Na verdade, tu és como os outros: figem amar a liberdade, fingem defender a diversidade, mas odeiam tudo aquilo que é diferente do que consideram seu mundo ideal. És, de fato, intolerante e não sabes lidar com o que não conheces.
Além disso, o que escreveste apenas demonstra que sequer te informaste sobre a tradição do homeschooling, seus métodos, suas formas, suas possibilidades. Despejaste no papel apenas impressões e preconceitos. Com isso, demonstras muito bem o que acontece com aqueles que são forjados dentro dos pátios das academias.

sábado, 28 de julho de 2012

Dica de leitura


Gerard van den Aardweg é Ph.D. em Psicologia pela Universidade de Amsterdam. Exerceu a psicoterapia desde 1963 na Holanda por mais de trinta anos, especializando-se no tratamento de problemas de homossexualidade e casamento. Escreveu para muitas revistas e obras especializadas.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Justiça garante atuação de psicólogos em casos envolvendo menores em situação de violência


Dia 22 de Julho de 2012 as 14h:43
Após pedido do Ministério Público Federal (MPF) e do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), a 28ª Vara Federal concedeu liminar suspendendo em todo o território nacional uma resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) que proibia os psicólogos de fazerem perguntas diretamente a crianças e adolescentes em situação de violência. O MPF e o MPRJ argumentam que a determinação inviabiliza a atuação desses profissionais, mesmo aqueles com especialidade ou cargo efetivo na psicologia jurídica.


A Justiça Federal ainda determinou que o CFP seja proibido de aplicar qualquer tipo de penalidade aos psicólogos que atuem em colaboração com o Ministério Público ou como auxiliar do Poder Judiciário. A Justiça entendeu que a resolução editada em 2010 pelo CFP é resultado de uma análise equivocada de que o psicólogo estaria realizando o papel do magistrado ao fazer perguntas diretamente a crianças e adolescentes em situação de violência. No caso, o profissional atua apenas como um intermediário qualificado com a finalidade de proteger as vítimas.


A determinação do CFP também prejudicava o desenvolvimento do projeto “Depoimento sem Dano” em que os depoimentos de crianças e adolescentes eram feitos por um psicólogo judiciário, a partir de perguntas do magistrado e advogados, em uma sala diferente daquela na qual onde ocorre a audiência.


Esta não é a primeira vez que a resolução do Conselho Federal de Psicologia causa polêmica. Em 2010, o MPF no Rio Grande do Sul expediu recomendação ao CFP para que suspendesse a resolução em questão, mas o órgão não acatou o pedido. Posteriormente, o Estado do Rio Grande do Sul entrou com um mandado de segurança para garantir a atuação do psicólogo judiciário nas causas em que crianças e adolescentes fossem ouvidas. Como esta decisão só teve efeitos para o Poder Judiciário do Rio Grande Sul, a procuradora da República no Rio de Janeiro, Marcia Morgado Miranda, moveu a ação juntamente com o Ministério Público do Estado do Rio pedindo a suspensão da resolução em âmbito nacional.


Fonte: http://www.justicaemfoco.com.br/?pg=desc-noticias&id=54799

ATENÇÃO: Resolução 10/2010, do Conselho Federal de Psicologia (CFP) suspensa em todo o território nacional

17/07/2012 - 19h14

Akemi Nitahara
Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro – A Justiça Federal no Rio de Janeiro suspendeu, em todo o território nacional, a Resolução 10/2010, do Conselho Federal de Psicologia (CFP), que regulamenta a escuta psicológica de crianças e adolescentes em situação de violência.
A decisão liminar da 28ª Vara Federal ocorreu no dia 9 de julho, mas a informação só foi divulgada hoje (17) pela Procuradoria da República no Rio de Janeiro. A ação foi movida pelo Ministério Público Federal e pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.

CGU acha indício de irregularidades em seis hospitais federais do Rio - CRP/RJ envolvido!

São eles: Lagoa, Ipanema, Bonsucesso, Servidores, Andaraí e C. Fontes.

Relatório preliminar indica superfaturamento e licitações direcionadas.


Bonsucesso
No Hospital Geral de Bonsucesso, a CGU encontrou indícios de fraude na licitação para os seviços de lavanderia. Em 2007, o hospital exigiu que a empresa que fosse competir deveria ter registro no Conselho Regional de Psicologia, o que para a CGU é ilegal. A mesma exigência de registro no Conselho Regional de Psicologia também foi feita em uma licitação para serviços de limpeza.
Também foi percebida a existência de empregados com faltas integrais no mês, sem desconto em folha de pagamento, no serviço de apoio administrativo.


Psicólogos podem atuar no Depoimento sem Dano

A Justiça Federal de primeira instância no Rio Grande do Sul considerou nula a Resolução que impedia os psicólogos de atuarem no Projeto Depoimento Sem Dano (DSD), idealizado pelo Judiciário gaúcho — que preconiza a oitiva diferenciada de crianças e adolescentes, geralmente em processos de abuso sexual. Decisão semelhante já havia sido proferida em relação aos assistentes sociais, cuja participação no mesmo projeto também foi impedida. O julgamento do Mandado de Segurança ocorreu no dia 11 de maio. Cabe reexame necessário ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região.
A pedido do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, a Procuradoria-Geral do Estado entrou com Mandado de Segurança. Alegou que a Resolução nº 10/2010, do Conselho Federal de Psicologia, violava direito líquido e certo de manutenção de equipe interdisciplinar destinada a assessorar a Justiça da Infância e Juventude. Destacou que a essa equipe foi instituída em atendimento ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e da Lei Estadual nº 9.896/93. Ainda, salientou a importância do psicólogo, que exerce a função semelhante a do intérprete no Depoimento Sem Dano, traduzindo as perguntas para a linguagem da criança e do adolescente.
A presidente do Conselho Regional de Psicologia (CRP) sustentou que a intervenção na oitiva judicial de crianças e adolescentes não constitui atribuição do psicólogo, de acordo com o que estabelece a Lei nº 4.119/62. Já a presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP) defendeu que a Resolução atacada não impede a assessoria do psicólogo ao magistrado, mas somente que o profissional não poderá inquirir a criança.
Na avaliação da juíza federal Marciane Bonzanini, os Conselhos Profissionais não possuem competência para estabelecer requisitos ou limitações para o exercício das profissões, destinando-se apenas a disciplinar e fiscalizar os profissionais das respectivas áreas quanto à regularidade, em sentido amplo, do exercício da profissão, além de expedir os respectivos registros e inscrições. Além disso, enfatizou, a Resolução impõe vedação ilegítima ao exercício da equipe interprofissional estabelecida por determinação do ECA, bem como pela Lei Estadual nº 9.896/93. Também refutou a alegação de que, no Depoimento Sem Dano, o psicólogo tenha atribuições privativas da magistratura, ‘‘isso porque o técnico facilitador atuaria como intérprete da linguagem da criança e do adolescente, dada a sua especial formação, de modo que a sua função é de auxiliar o juiz na inquirição das testemunhas’’. Com informações da Assessoria de Imprensa do TJ-RS.

"Porky’s contra a liberdade" - Mais uma do Conselho Federal de Psicologia

Diogo Mainardi

Lula tem de parar de alisar os cabelos. Em 14 de dezembro, ele inaugurará a Confecom. Por extenso: Conferência Nacional de Comunicação. Uma das propostas encaminhadas à Confecom pelo Conselho Federal de Psicologia é proibir a propaganda com pessoas de cabelos alisados, com o argumento de que ela pode causar "transtornos de toda ordem", comprometendo "a integridade física e psicológica" de quem a assiste. O que dizer de Lula? O que dizer de seu cabeleireiro Wanderley?
A Confecom é igual à Ancinav. Ela é igual também ao CFJ. A cada dois anos, o "subperonismo lulista" cria uma sigla para controlar a imprensa. Atacando em duas frentes: editorial e comercial. Inicialmente, as empresas do setor concordaram em participar da Confecom. Depois, elas se deram conta da armadilha preparada por Franklin Martins e pularam fora. Só restaram entidades como CUT, Abragay e Conselho Federal de Psicologia. Que, além de proibir a propaganda com pessoas de cabelos alisados, recomenda proibir igualmente a propaganda de carros, porque "o estímulo ao transporte individual ofusca as lutas por um transporte público de qualidade" e aumenta "o número de mortes em acidentes de trânsito".
A Ancinav fracassou. O CFJ fracassou. O que acontecerá com a Confecom? Fracassará. Mas a imprensa, de bombardeio em bombardeio, de anúncio em anúncio, de chantagem em chantagem, amedronta-se e domestica-se. Lula sabe disso. Franklin Martins sabe disso. O resultado é que, nos últimos dias, Dilma Rousseff também passou a atacar a imprensa, com aquele tom autoritário de professora de ginástica da série Porky’s, sempre com o apito na boca.
Os repetidos ataques à imprensa do Porky’s subperonista fazem parte daquilo que o lulismo chamou de "campanha plebiscitária". Em 2010, Lula, Franklin Martins e Dilma Rousseff pretendem estabelecer "o confronto entre dois programas, entre dois Brasis": o de Lula e o de Fernando Henrique Cardoso. Trata-se da estratégia eleitoral mais obtusa de todos os tempos. Sempre que o PT apostou na tese dos "dois Brasis", ele se danou: o Brasil do passado e o Brasil do presente, o Brasil do Norte e o Brasil do Sul, o Brasil branco e o Brasil preto, o Brasil rico e o Brasil pobre, o Brasil das empresas estatais e o Brasil das empresas privadas, o Brasil educado e o Brasil analfabeto, o Brasil dos cabelos alisados e o Brasil em que ninguém pode alisar os cabelos, o Brasil da imprensa independente e o Brasil da Confecom. Contra a campanha plebiscitária do PT, o PSDB já tem a campanha pronta. Basta dizer: "O Brasil é um só".

MPF quer impedir Conselho de punir psicólogo

Restrições à liberdade profissional só podem ser autorizadas por leis aprovadas pelo Congresso e sancionadas pelo presidente da República. Decisões administrativas dos conselhos profissionais não podem modificar as atribuições e a competência dos profissionais de psicologia. Com base nesse argumento, o Ministério Público Federal ajuizou Ação Civil Pública, na qual pede que o Conselho Regional de Psicologia de São Paulo não aplique sanções ao profissionais que fizerem exames criminológicos.
Em julho de 2010, o Conselho Federal de Psicologia estabeleceu sanções aos aos psicólogos que fizerem, atendendo ordens judiciais, exames criminológicos ou que participem de ações e/ou decisões que envolvam práticas de caráter punitivo e disciplinar, bem como àqueles que elaborarem avaliações psicológicas que subsidiem decisão judicial durante a execução da pena do sentenciado.
No mérito da ação, o MPF pede que seja declarado nulo o artigo 4º da Resolução CFP 009/2010, de julho deste ano, que estabeleceu as restrições mencionadas acima. A resolução está suspensa desde 2 de setembro, porém ela é temporária e poderá voltar a vigorar daqui a seis meses. O conselho preparou ainda um congresso para debater o assunto em novembro.
De acordo com a ação proposta pela procuradora da República Adriana da Silva Fernandes, a Resolução 009 foi elaborada com o intuito de regulamentar a atuação do psicólogo no sistema prisional e estabelecer os princípios que ele deve seguir, entretanto “restringiu indevidamente o livro exercício profissional garantido pela Constituição”.
Segundo a regra, o psicólogo, ao atuar no sistema prisional, pode apenas fazer “atividades avaliativas com vistas à individualização da pena quando do ingresso do apenado no sistema prisional” e, quando houver ordem judicial, o “psicólogo deverá explicitar os limites éticos de sua atuação ao juízo”.
Para Adriana Fernandes, restrições à liberdade profissional só podem ser autorizadas por leis aprovadas pelo Congresso e sancionadas pelo presidente da República. Decisões administrativas dos conselhos profissionais, como as determinadas, não podem modificar as atribuições e a competência dos profissionais de psicologia.
A resolução do CFP se baseia em alteração da Lei de Execuções Penais que tornou facultativo o exame criminológico, mas súmulas do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça possibilitam o exame, desde que determinado por decisão fundamental de um juiz. Portanto, avalia o MPF, a resolução do CFP contraria a jurisprudência sobre o assunto. “Se o juiz determinou, não pode o psicólogo eximir-se de cumprir a decisão judicial com base na resolução do conselho profissional”, afirma a procuradora.
Se a resolução do Conselho Federal de Psicologia é ilegal, logo o Conselho Regional de Psicologia de São Paulo não pode aplicar sanções aos profissionais “enquadrados” pela norma. A ação foi distribuída para a 7ª Vara Federal Cível de São Paulo. Com informações da Assessoria de Imprensa da PR-SP.

Processo: 0020719-65.2010.4.03.6100
Clique aqui para ler a Ação Civil Pública

Fonte: Conjur

quinta-feira, 26 de julho de 2012

USURPAÇÃO DE COMPETÊNCIA

Exercício da profissão é questão de reserva legal

Por Rafael Baliardo (*)

Embora possuam competência constitucional para normatizar e fiscalizar diferentes especialidades profissionais, conselhos de classe não podem “interferir na liberdade de ensino e no livre exercício da profissão, impedindo a pesquisa, o aprendizado e a prática” da atividade a que se prestam assistir. O entendimento é do juiz Marcelo Krás Borges, da 1ª Vara Federal de Florianópolis, que acolheu pedido para anular um procedimento ético do Conselho Regional de Psicologia da 12ª Região (Santa Catarina) contra uma psicóloga condenada administrativamente por utilizar “técnicas não reconhecidas” ao desempenhar seu ofício.

Com quase três décadas de prática clínica e experiência consolidada como docente, a psicóloga Eneida Suely Rodrigues Lima de Oliveira sofreu, em 2009, a instauração de um processo ético, pelo Conselho Regional de Psicologia de Santa Catarina, por divulgar e ministrar cursos sobre técnicas consideradas “alheias à psicologia enquanto ciência e profissão”. A psicóloga é especialista em ‘psicologia transpessoal’, ramo derivado da psicologia humanista e surgido na segunda metade da década de 1960, nos Estados Unidos, no seio do chamado movimento new age. A psicologia transpessoal abarca, em seus fundamentos, o estudo do que é qualificado por “multiplos estados da consciência”, bem como fenômenos relacionados a esses conceitos.

Mesmo dispondo de titulação de curso de pós-graduação em psicologia transpessoal aprovado pelo Ministério da Educação, a psicóloga foi notificada pelo CRP-12 de que “não podia se apresentar como especialista” nem prestar serviços de atendimento psicológico “cujos procedimentos, técnicas e meios não estivessem regulamentados e reconhecidos pela profissão”. Em setembro de 2011, a psicóloga foi condenada à censura pública por “induzir os alunos à utilização das técnicas não reconhecidas pelo Sistema Conselhos de Psicologia”.

“A decisão da Justiça, contrária ao conselho, foi toda baseada no âmbito constitucional por reconhecer como ilegítima e ilegal a atitude do CRP-12 de controlar a ação de uma psicóloga como professora”, disse à revista Consultor Jurídico a advogada Silvia Luiza Lermen, de Florianópolis, que representou a psicóloga, autora da ação declaratória que pediu pela nulidade do procedimento administrativo junto à Justiça Federal de Santa Catarina. “O conselho também ignorou o fato de inexistir uma lei que estabeleça um rol de técnicas reconhecidas”, apontou a advogada.

Ao decidir a favor da autora da ação contra o CRP-12, em maio deste ano, o juiz Marcelo Krás Borges lembrou que a “ legislação profissional afeta à psicologia não estabelece nenhuma limitação ou proibição à psicologia transpessoal”. Para o juiz, não é permitido ao Conselho Regional de Psicologia de Santa Catarina “usurpar a competência do legislador ao tentar limitar a liberdade profissional e de ensino através da imposição do procedimento disciplinar e da pena de censura”.

Na decisão, foi observado também que o ramo da psicologia transpessoal foi aprovado como disciplina do curso de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), além de ser efetivamente reconhecido na seara acadêmica. O juiz citou, ainda, jurisprudência do próprio Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que negou recurso ao CRP-12, na ocasião em que a entidade contestou a inclusão, no programa curricular da UFSC, de disciplinas com conteúdos da ‘abordagem transpessoal’ em psicologia.

Já na decisão do TRF-4, de 2007, foi reconhecido o “consenso na jurisprudência pátria no sentido de que somente a lei pode estabelecer condições para o exercício regular de profissões, não se admitindo que regramentos de inferior hierarquia criem óbices ou limitações para o livre exercício de atividade laborativa, regulando matéria sujeita à reserva legal”.

“Com efeito, se toda nova técnica fosse proibida pelo Conselho de Regional de Psicologia, a psicologia como Ciência Humana não poderia mais evoluir e não seriam mais encontradas técnicas modernas para a solução dos problemas humanos, o que seria lamentável, já que haveria um regresso aos tempos mais obscuros da História da Humanidade, em que eram proibidas novas descobertas e novas técnicas científicas que não estivessem de acordo com o regime preestabelecido”, concluiu o juiz federal Marcelo Krás Borges no texto da decisão. Para o juiz, houve, sobretudo, violação ao artigo 206 e também ao artigo 5º, inciso XIII, da Constiuição Federal, que dispõem sobre liberdade de profissão e ensino.


Crivo científico

A discussão não se resume apenas a abordagens consideradas “não-científicas” por seus críticos. Em ocasião anterior, a censura do CRP de Santa Catarina não se limitou apenas a técnicas de cunho esotérico como a psicologia transpessoal ou terapias de vidas passadas. O CRP-12 já havia orientado a psicológos do estado a não realizarem treinamento ou trabalhar com o modelo de psicoterapia conhecido como EMDR (sigla no original em inglês para Dessensibilização e Reprocessamento por meio do Movimento Ocular). Diferentemente da psicologia transpessoal e de abordagens do tipo, o EMDR tem seu fundamento em uma base essencialmente neurofisiológica, sendo considerada uma terapia de reprocessamento de informações utilizada no tratamento de traumas.

Criado nos Estados Unidos no fim dos anos 1980 e utilizado inicialmente com vítimas de estupro e veteranos da Guerra do Vietnã, o EMDR é hoje recomendado pela Associação de Psiquiatria Americana (APA), tendo recebido o mais alto selo de aprovação concedido pelo NREPP (National Registry of Evidence-based Programs and Practices) dos EUA como abordagem psicoterapêutica baseada em evidências.

Contudo, apesar de ter sua comprovação empírica constantemente submetida a centenas de estudos científicos divulgados em publicações de diferentes países, o EMDR não foi reconhecido pelo Conselho Regional de Psicologia de Santa Catarina. O episódio repercutiu na manifestação do Conselho Federal de Psicologia (CFP), em março de 2010, que admitia, em correspondência encaminhada a Associação Brasileira de EMDR, que “não há uma lista de técnicas/práticas reconhecidas pelo Sistema Conselhos de Psicologia”. Na ocasião, o CFP observou que, por “práticas reconhecidas” devia se subentender o “reconhecimento advindo da ciência, que é desenvolvido na academia e por meio de pesquisas”.

Quanto ao mérito da ação em si, a advogada Silvia Luiza Lermen observa, ainda, que o próprio CRP-12 aprovou curso de graduação da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC) com conteúdo da psicologia transpessoal incluindo ‘terapia de regressão em sua ementa’.

“A contradição é que um dos fundadores do Conselho Federal de Psicologia, o psicólogo Pierre Weil, era estudioso da psicologia transpessoal”, observou a advogada. “Está claro que o conselho não é o órgão competente para fiscalizar os conteúdos de cursos”, disse.

O psicólogo e escritor francês Pierre Weil, que morreu em 2009, foi um dos responsáveis pela regulamentação da profissão de psicólogo no Brasil, sendo o co-autor de um best-seller na área psicológica “O corpo fala” (1980). Ele foi  indicado ao prêmio Nobel da Paz em 2003.

Ao julgar procedente o pedido de medida liminar, o juiz anulou o procedimento ético que pesava contra a autora da ação e condenou o reú a se retratar nos mesmos moldes da censura submetida, isto é, com a devida publicação no Diário Oficial catarinense e retratação afixada na sede do CRP-12, além do pagamento dos honorários advocatícios em 10% do valor da causa e a devolução das custas recolhidas pela autora. Cabe recurso.


(*) Rafael Baliardo é repórter da revista Consultor Jurídico em Brasília.

Fonte: Revista Consultor Jurídico, 23 de julho de 2012
http://www.conjur.com.br/2012-jul-23/conselhos-profissionais-nao-podem-legislar-pesquisa-educacao

Ação Civil Pública contra o Conselho Federal de Psicologia

Ação Civil Pública contra o Conselho Federal de Psicologia

terça-feira, 24 de julho de 2012

Ferreira Gullar fala sobre assistência psiquiátrica no Brasil


Lição para psicólogos

"O próprio Freud afirma que o fato de uma ideia satisfazer um desejo não implica necessariamente que a ideia seja falsa. Considerando que os psicanalistas chegam, por vezes, a esta conclusão errada, faço questão de sublinhar essa observação produzida por Freud. Na realidade, há muitas ideias, tanto verdadeiras como falsas, às quais o homem chegou porque desejava que a ideia se tornasse numa verdade. A maioria das descobertas resultaram da vontade de provar que uma coisa é verdadeira. Ainda que a presença dessa vontade possa originar suspeitas no observador, nunca pode tornar inválidos um conceito ou uma afirmação. O critério de validade não reside na análise psicológica da motivação, mas sim no exame das provas contra ou a favor de uma hipótese, dentro do seu enquadramento lógico." (Erich Fromm, Psicanálise e Religião)



segunda-feira, 23 de julho de 2012

Fechem o CFP

Diário do Comércio
Por Olavo de Carvalho

A arte tradicional da dialética, desenvolvida em dois mil e quatrocentos anos de prática filosófica, determina que nunca se deve discutir ou atacar uma tese antes de havê-la compreendido. A experiência brasileira dos últimos anos parece sugerir que esse preceito está superado: cada um se sente tanto mais autoconfiante e imbuído de certeza absoluta ao investir contra uma idéia quanto menos é capaz de compreendê-la e até mesmo de concebê-la. O ideal, mesmo, é ignorá-la por completo.
A nova regra é seguida não só por blogueiros, jornalistas e professores, mas até por entidades oficiais incumbidas, legalmente, de representar a autoridade máxima no assunto ignorado.
O exemplo mais recente é o do Conselho Federal de Psicologia, quando ameaça cassar a licença profissional da psicóloga Marisa Lobo por aplicar técnicas da “psicologia cristã”. A surpresa indignada, o ar de escândalo com que os membros do Conselho falam dessa prática demonstra, acima de qualquer possibilidade de dúvida, que ignoram por completo uma corrente de pensamento que desempenha papel constitutivo e essencial na moderna psicologia. Uma simples consulta ao Google, sob o rótulo “Christian psychology”, teria dado a esses senhores 59 milhões de respostas, mostrando que não se trata de assunto exótico nem ignorado no mundo. No mínimo, no mínimo, ninguém tem direito a um diploma de psicólogo se desconhece as obras de Charles Baudouin, Igor Caruso, Agostino Gemelli, Paul Diel, René Le Senne, Gustave Thibon, Paul Tournier, James Loder, Angus Menuge, Fernando Garzon, René Girard, – e tudo isso é apenas um fragmento do imenso corpus da “psicologia cristã”. Se a expressão soa aos ouvidos daqueles cavalheiros como novidade herética ou enxerto indevido de intenções proselitistas na atividade clínica, isso só revela que eles não têm a menor idéia da coisa sobre a qual imaginam estar falando.
O que inspira o seu horror à “psicologia cristã” é um estereótipo popular já longamente despido de qualquer vestígio de dignidade intelectual. A origem desse estereótipo remonta ao século XIX, quando Kant e Augusto Comte traçaram uma rígida linha divisória formal entre “conhecimento” e “fé”. Há longo tempo essa pretensão legisladora dos dois filósofos já foi desmoralizada, e o foi também por obra de psicólogos eminentes que descobriram, ou redescobriram, o imenso tesouro de conhecimentos psicológicos guardado nos textos dos santos, místicos, profetas e teólogos. Nenhuma psicologia que não integrasse esses conhecimentos, enriquecendo com eles o cabedal das modernas observações experimentais e clínicas, mereceria jamais o nome de “ciência”. Um dos mais enfáticos apelos nesse sentido veio do genial Ken Wilber, em seu Integral Psychology (Collected Works, vol. IV, Boston and London, Shambhala, 1999, pp. 498-505). À pretensão de reduzir os conhecimentos da psique humana ao que dela se obteve pela via experimental moderna, Wilber denomina “doutrina da Terra plana”. A diretoria do CFP compõe-se, ao que parece, de verdadeiros crentes dessa religião. Imaginam que o horizonte da ciência psicológica está circunscrito por aquilo que dela aprenderam em faculdades brasileiras ignoradas nos circuitos científicos internacionais.
Desde que comecei a dar aulas e conferências, trinta anos atrás, notei que, entre os alunos que me chegavam das universidades, os que mais se destacavam pelo radical desconhecimento da bibliografia da sua área profissional eram os psicólogos. Tudo o que sabiam era um pouco de behaviorismo, com umas pinceladas de Freud e Reich. Nunca tinham ouvido falar de Viktor Frankl, de Lipot Szondi, de Bettelheim, de Diel, de Le Senne, de Thibon e de mais algumas dezenas de autores de cuja existência, estupefatos, tiveram notícia pelas minhas aulas. Era incontornável a conclusão de que o Brasil tinha as piores faculdades de psicologia do mundo. Os microcéfalos do CFP são criaturas desse desastre pedagógico.
Mesmo fora do âmbito estritamente cristão, pouco resta das grandes descobertas psicológicas do século XX se as amputamos do legado místico-religioso em que se apóiam. Não há como escapar da noção de “psicologia judaica” quando se entende o sentido profundo das obras de Viktor Frankl, Lipot Szondi, Otto Rank, Bruno Bettelheim e do próprio Sigmund Freud (v. David Bakan, Sigmund Freud and the Jewish Mystical Tradition, Princeton, NJ, Van Nostrand, 1958). Nem menciono, por falta de espaço, a imensidão do campo da psicologia esotérica islâmica que vem sendo recuperado nas últimas décadas por estudiosos do porte de um Seyyed Hossein Nasr. Também omito, pela mesma razão, a herança vedantina e budista.
Ainda dentro da área da psicologia cristã, nenhum psicólogo sério pode ignorar hoje um estudo de importância universal como Principles of Neurotheology, de Andrew B. Newberg, bem como outras pesquisas correntes sobre a função terapêutica da prece, objeto de uma bibliografia acadêmica de dimensões oceânicas. A crença ingênua dos apedeutas do CFP, de que tudo aquilo que venha com o nome de “cristão” está fora do terreno da psicologia clínica, revela apenas uma ignorância assombrosa, incompatível não só com a sua pretensão de fiscalizar a atividade profissional dos psicólogos, mas com o simples exercício dessa atividade mesma.
Não, não estou defendendo a psicóloga Marisa Lobo ante o CFP. Estou defendendo, literalmente e sem meias medidas, o fechamento dessa entidade e a responsabilização penal de seus diretores por exercerem o ofício sem ter conhecimentos cuja falta seria indesculpável até mesmo em simples estudantes da matéria.
 P.S. - Algumas excelentes contribuições à psicologia cristã partiram do Brasil. Exemplo: As Chaves do Inconsciente, de Renate Jost de Moraes, Rio, Agir, 1985.

domingo, 22 de julho de 2012

Desejo, logo existo?

Por Luciano Garrido

Os prejuízos causados pelo ativismo político do Conselho Federal de Psicologia são realmente incalculáveis. Quando uma determinada ciência é prostituída em benefício de ideologias, sua reputação cai no mais absoluto descrédito. Os critérios de validade que fundamentam a produção do conhecimento, e que são universalmente aceitos, acabam substituídos pela conveniência política daqueles que detém circunstancialmente o poder – mesmo que seja o poder de uma simples autarquia.

Assim, a “boa teoria” não é mais aquela que resiste ao teste de realidade ou apresenta um valor heurístico considerável, mas a que atende a certos anseios pessoais ou coletivos, por mais intangíveis que sejam.  E se os fatos negam a ideologia, tanto pior para os fatos. É que as construções ideológicas, em seu substrato mais íntimo, se assentam sobre disposições afetivas bastante arraigadas, algo que lhes confere uma capacidade de resiliência fora do comum. As ideologias não prestam contas à realidade: se limitam a criticar o que existe em nome do que não existe, e talvez jamais possa existir. É nesse ambiente de inspirações obscurantistas e degradação intelectual que a psicologia tem se tornado terreno fértil para toda sorte de impostores e demagogos.

A última audiência pública que discutiu a “cura gay” – assim carinhosamente batizada pela imprensa – foi um exemplo típico dessas distorções. Nela, houve um deputado que se sentiu à vontade para opinar sobre assuntos relacionados à Psicopatologia. Quais eram suas credenciais? Basicamente, um diploma de jornalista e uma fama exaurida em programa de reality show.

O grande problema, na verdade, não está tanto na tagarelice dos palpiteiros de ocasião, mas no silêncio obsequioso com o qual boa parte dos psicólogos vem testemunhando disparates desse jaez.  Isso mostra que a patrulha ideológica do Conselho Federal de Psicologia alcançou o efeito almejado, e a esta altura dos acontecimentos, suponho eu, já decretou toque de recolher até na comunidade acadêmica. Enquanto os psicólogos se escondem nos consultórios e guardam o mais absoluto mutismo, o deputado Jean Wyllys vem à tribuna para dizer o seguinte:

“É óbvio que alguém homossexual vai ter egodistonia, mas por viver numa cultura homofóbica que rechaça e subalterniza sua homossexualidade. O certo seria colocar o ego em sintonia com seu desejo, é sair da vergonha para o orgulho.”

Se bem entendi a opinião do deputado, ele parte da premissa de que o desejo sexual possui primazia sobre o ego; logo, é o ego que deve estar em sintonia com o desejo, e não este em sintonia com aquele. Isso, segundo o sr. Wyllys, é que é o certo. Para efeito de argumentação, vou tomar a palavra “certo” no sentido aproximado de “normal”, já que não parece sensato supor que o certo, nesse caso, significa algo bizarro, anômalo ou desviante.

Dito isso, eu perguntaria ao sr. Wyllys: por que não considerar como certo – ou normal, como queira – o desejo sexual que está em conformidade com o sexo biológico? Quais os critérios utilizados pelo deputado para definir seu padrão de normalidade? É preciso que ele aponte os fundamentos clínicos, teóricos, filosóficos, ou até metafísicos, sobre os quais está apoiada sua opinião.

Sigmund Freud, por exemplo, que é considerado o maior psicólogo clínico de todos os tempos, pressupunha em sua teoria a existência de um registro real da sexualidade – “a diferença entre os sexos” – como causa do desejo para o sujeito. Essa idéia, aliás, foi condensada numa de suas célebres frases, segundo a qual “anatomia é destino”. Em momento algum Freud disse que o desejo sexual era destino. Donde se depreende que a anatomia do sujeito é um dado de realidade anterior a qualquer processo subjetivação, e, como tal, deve orientá-lo. Aliás, não só a anatomia, mas a fisiologia também.

Se o real precede o imaginário e o simbólico, e se o ego é a instância psíquica regida pelo “princípio de realidade”, como ensinava Freud, é natural que as pessoas achem certo (ou normal) que o desejo sexual esteja em sintonia com a realidade corporal.

O que leva o desenvolvimento psicossexual de alguém a perder-se nos desvãos de suas angústias e fantasias, levando-o a desordens na identidade sexual, é algo passível de investigação científica – e, quiçá, de solução terapêutica viável. Existem muitas tentativas de entender o fenômeno (“fixação narcísica”, “horror à castração”, etc), propostas por vários estudiosos da sexualidade humana – Freud entre eles. Porém, se a cultura encara com certa perplexidade ou estranhamento as práticas homossexuais, isso não dá margem para presumir que a patologia esteja obrigatoriamente na cultura, como pretende o deputado Jean Wyllys ao chamá-la de “homofóbica” (na verdade, o intuito não é diagnosticar uma patologia, mas proferir um simples insulto).

A capacidade de discernir o real do irreal, de diferenciar os estímulos provenientes do mundo exterior dos estímulos internos, está na própria gênese do processo de subjetivação. Freud designava como “prova de realidade” a esse dispositivo que, de maneira gradativa, consolida as funções superiores da consciência, memória, atenção e juízo, entre outros atributos que singularizam a natureza humana, razão pela qual se encontram tão enraizados na cultura. A esse respeito, é Freud quem diz:

“A educação pode ser descrita, sem hesitação, como o incentivo à superação do princípio do prazer, à substituição dele pelo princípio de realidade.” (Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico, Freud, 1911)

Sendo ainda mais específico, os critérios de doença e saúde utilizados pela disciplina da psicopatologia também pressupõem em grande medida essa distinção elementar entre fenômenos meramente subjetivos e a realidade objetiva. É dentro dessa perspectiva que o delírio e a alucinação se constituem como exemplos extremos de manifestações patológicas que perturbam, respectivamente, o juízo e a percepção da realidade. Enquanto que os devaneios e as fantasias, embora considerados benignos sob o aspecto da higidez mental, nem por isso deixam de ser igualmente irreais.

Por tudo isso, não surpreende que o filósofo racionalista René Descartes, ao cabo de uma longa reflexão, tenha concluído que o fundamento indubitável da existência deve repousar sobre as faculdades humanas superiores, idéia cuja fórmula ganhou expressão lapidar no seu cogito, ergo sum. Já o sr. Wyllys, o que faz? Como um bom hedonista, quer nos convencer de que o fundamento da existência humana reside mesmo é nas forças cegas do baixo-ventre, o que na mais respeitável filosofia de alcova pode ser equacionado por outro mote, qual seja, o libido, ergo sum. Quem acredita que o ego deve se curvar aos desejos sexuais é porque lhes confere um estatuto primordial na própria definição de natureza humana.

Ainda que não houvesse quaisquer parâmetros para se discutir a sexualidade humana, e que todas as opiniões, portanto, fossem colocadas na vala-comum das idiossincrasias pessoais, subsistiria o fato de que as pessoas pautam suas vidas por valores.  Colocar a mera fruição do desejo sexual como o que há de mais sublime na vida humana pode não ser uma regra válida para todos. O que na concepção de uns significa “sair da vergonha para o orgulho”, pode ser o inverso para muitos outros, conforme as diferentes cosmovisões que se adote.

É por isso que o psicólogo não pode usar de sua autoridade profissional na tentativa de abolir sentimentos de vergonha ou culpa em seus pacientes. A missão do psicólogo clínico, segundo Freud, limita-se a transformar o sofrimento neurótico em infelicidade humana normal – essa que todos nós, em maior ou menor medida, sentimos.  Quem acredita que o objetivo da psicoterapia é liberar os desejos sexuais de suas “amarras” culturais, convertendo indivíduos neuróticos em discípulos de Marquês de Sade, é porque pretende impor suas convicções hedonistas aos demais. Como alertava o psicanalista Gregory Zilboorg:

“O Homem não pode ser curado das exigências ético-morais e religiosas de sua personalidade, que nele vivem e dele fazem o que realmente é. Só o morboso, o irreal e inútil podem ser analisados.”

Em outra direção, tornou-se lugar-comum o argumento de que o homossexualismo seria prática natural porque é observada com freqüência em diversas espécies animais. Esse entendimento, porém, é bastante falho, pois compara entre si fenômenos essencialmente diversos. Ainda que, em uma determinada espécie, se observe o coito em indivíduos do mesmo sexo, não se pode defini-lo como homossexualismo sem incorrer naquilo que os etólogos chamam de “antropomorfização” do comportamento animal.

Os animais não possuem desejo sexual no sentido empregado por nós. Animais possuem tão-somente impulsos sexuais, e esses impulsos, em condições normais, seguem o comando fixo dos instintos estabelecidos ao longo de sua cadeia evolutiva. Acrescente-se que, sob a ótica da evolução, não pode haver algo como um “instinto homossexual” entre animais, pois é certo que os indivíduos com essa tendência não repassariam sua carga genética adiante. Até um suposto “instinto bissexual” teria chances bem reduzidas de proliferação, já que seria uma desvantagem bastante palpável se olharmos pela perspectiva ampla da escala evolutiva.

A hipótese explicativa mais plausível para a ocorrência desse fenômeno entre os animais segue outra direção. Quando premidos por um forte impulso sexual cujo meio de satisfação original encontra-se ausente, os animais comportam-se de modo a favorecer uma satisfação alucinatória do impulso. Quem nunca testemunhou cães que, ao verem-se privados de uma fêmea, passam a “montar” em nossas pernas, simular o coito em outros animais, no ursinho de pelúcia ou no ”puff” da sala?  Por que não poderiam fazê-lo – como de fato o fazem – em outros cães do mesmo sexo? Se isso for homossexualismo, o que seriam os outros comportamentos?

Segundo Freud, o modo de satisfação alucinatório também é encontrado nos seres humanos, bem nos primórdios de seu desenvolvimento. Bebês que choram de fome e são acalmados por uma chupeta, ainda que não estejam sendo nutridos, experimentam também um modo de satisfação alucinatório. Com o passar do tempo, na medida em que acumulam frustrações e percebem que esse tipo de mecanismo não é capaz de aplacar a fome, as crianças o abandonam em favor de um “sentido de realidade”. É a partir desse momento que ego vai se estruturando no aparelho psíquico. Mas só os seres humanos são capazes disso.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Quem roubou a cultura dos EUA?

Nota do editor: Este artigo foi extraído do novo livro do Dr. Ted Baehr e Pat Boone “The Culture-wise Family: Upholding Christian Values in a Mass Media World.” (“A Família do Ponto de Vista Cultural: Defendendo Valores Cristãos em um Mundo de Mídia de Massa”). No livro, o especialista em entretenimento, Dr. Ted Baehr, e o lendário músico Pat Boone recomendam que as pessoas façam decisões sábias para si mesmas e para suas famílias, para que possam proteger seus filhos das mensagens tóxicas da cultura.
O que se segue é o capítulo 10, escrito pelo historiador Williams S. Lind.
Em algum momento, durante o século passado, alguém roubou nossa cultura. Há apenas 50 anos, na década de 50, os EUA eram um ótimo lugar. Era seguro, e era decente. As crianças recebiam boa educação nas escolas públicas. Até os trabalhadores braçais traziam para casa rendas de classe média, para que as mães pudessem ficar em casa e cuidar das crianças. Os programas de TV refletiam valores sadios e tradicionais.
Onde foi parar tudo isso? Como foi que os EUA se tornaram o lugar sórdido e decadente em que vivemos hoje, tão diferente que as pessoas que nasceram antes da década de 60 sentem como se estivessem em um país estrangeiro? Será que simplesmente “aconteceu”?
É claro que não. De fato, foi colocada em prática uma agenda deliberada para roubar a nossa cultura e deixar uma outra completamente diferente no lugar. A história de como e por que é uma das partes mais importantes da história dessa nação; e é uma que quase ninguém conhece. As pessoas por trás dela quiseram que fosse assim.
Basicamente, o que aconteceu foi que a cultura tradicional dos EUA, que se desenvolveu ao longo de gerações a partir das nossas raízes ocidentais e judaico-cristãs, foi desprezada por uma ideologia. Essa ideologia é mais conhecida como “politicamente correto” ou “multiculturalismo”. Na verdade, trata-se do marxismo cultural: o marxismo traduzido da economia para a cultura, em um esforço que data não da década de 60, mas da Primeira Guerra Mundial. Por incrível que pareça, à medida que o marxismo econômico da União Soviética se dissipava, um novo marxismo cultural se tornava a ideologia dominante das elites americanas. O objetivo nº 1 do marxismo cultural, desde que foi criado, é o de destruir a cultura ocidental e a religião cristã.
Para entender qualquer coisa, precisamos conhecer sua história. Para entender quem roubou a cultura americana, precisamos olhar para a história do “politicamente correto”.

O início da teoria marxista

Antes da Primeira Guerra Mundial, a teoria marxista dizia que se a Europa algum dia entrasse em guerra, as classes trabalhadoras de todos os países europeus iriam se revoltar, derrubar os governos e criar uma nova Europa comunista. Mas quando a guerra eclodiu em julho de 1914, não foi o que aconteceu. Em vez disso, os trabalhadores de todos os países europeus se juntaram aos milhões para lutar contra os inimigos do seu país. Finalmente, em 1917 ocorreu a Revolução Comunista, na Rússia. Mas as tentativas de espalhar a revolução para outros países falharam porque os trabalhadores não a apoiavam.
Após o fim da Primeira Guerra Mundial em 1918, os teóricos marxistas tiveram que se fazer a pergunta: O que deu errado? Como bons marxistas, não poderiam admitir que a teoria marxista estava incorreta. Em vez disso, dois dos principais intelectuais marxistas, Antonio Gramsci na Itália e Georg Lukacs na Hungria (Lukacs foi considerado o mais brilhante pensador marxista desde o próprio Marx), independentes um do outro, pensaram na mesma resposta. Eles disseram que a cultura ocidental e a religião cristã haviam cegado a classe trabalhadora dos seus verdadeiros interesses de classe marxistas de tal forma que a revolução comunista era impossível no Ocidente, até que esses dois elementos fossem destruídos. Esse objetivo, instituído como o objetivo do marxismo cultural desde o início, nunca mudou.

Uma nova estratégia

Gramsci expôs notoriamente uma estratégia para destruir o Cristianismo e a cultura ocidental, que se mostrou altamente bem sucedida. Em vez de exigir uma revolução comunista logo de cara, como fizeram na Rússia, ele disse que os marxistas do Ocidente deveriam tomar o poder político por último, após uma “longa marcha nas instituições”: as escolas, a mídia, e até as igrejas, todas as instituições que pudessem influenciar a cultura. Essa “longa marcha nas instituições” é o que os EUA experimentaram, principalmente desde a década de 60. Felizmente, Mussolini reconheceu o perigo representado por Gramsci e o colocou na cadeia. Sua influência se manteve pequena até a década de 60, quando seus trabalhos, principalmente os “Cadernos do Cárcere”, foram redescobertos.
Georg Lukacs se mostrou mais influente. Em 1918, ele se tornou comissário de cultura no curto regime bolchevique de Bela Kun na Hungria. Durante esse período, ao perguntar “Quem nos salvará da civilização ocidental?” ele instituiu o que chamou de “terrorismo cultural”. Um dos seus principais componentes foi a introdução da educação sexual nas escolas húngaras. Lukacs percebeu que se ele pudesse destruir a moral sexual tradicional do país, teria dado um enorme passo no sentido de destruir sua moral tradicional e sua fé cristã.
Longe de se unirem ao “terrorismo cultural” de Lukacs, a classe trabalhadora da Hungria ficou tão escandalizada que quando a Romênia invadiu a Hungria, os trabalhadores não lutaram pelo governo de Bela Kun, que acabou sendo derrubado. Lukacs desapareceu, mas não por muito tempo. Em 1923, ele apareceu em uma “Semana de Estudos Marxistas” na Alemanha, um programa patrocinado pelo jovem marxista Felix Weil, que havia recebido uma herança milionária. Weil e outros que estiveram naquela semana de estudos ficaram fascinados pela perspectiva cultural do marxismo apresentada por Lukacs.

A Escola de Frankfurt

Weil reagiu utilizando parte da sua fortuna para abrir um novo think tank na Universidade de Frankfurt, na Alemanha. Ele originalmente seria chamado de “Instituto para o Marxismo”. Mas os marxistas culturais se deram conta de que seria muito mais eficaz ocultar sua verdadeira natureza e seus objetivos. Eles convenceram Weil a dar ao novo instituto um nome que parecesse neutro, o “Instituto para Pesquisa Social”. Logo conhecida simplesmente por “Escola de Frankfurt”, o Instituto para Pesquisa Social se tornaria o lugar onde o politicamente correto, da forma como conhecemos, foi desenvolvido. A resposta básica à pergunta “Quem roubou a nossa cultura?” é: foram os marxistas culturais da Escola de Frankfurt.
Primeiramente, o Instituto trabalhou principalmente com questões marxistas convencionais, como o movimento trabalhista. Mas isso mudou drasticamente em 1930.  Naquele ano, o Instituto recebeu um novo diretor, o brilhante jovem intelectual marxista chamado Max Horkheimer. Horkheimer havia sido fortemente influenciado por Georg Lukacs. Ele rapidamente se esforçou em transformar a Escola de Frankfurt no lugar onde o trabalho pioneiro de Lukacs sobre o marxismo cultural pudesse ser desenvolvido até se tornar uma ideologia completa.
Para esse fim, ele trouxe alguns novos membros para a Escola de Frankfurt. Talvez o mais importante fosse Theodor Adorno, que se tornaria o colaborador mais criativo de Horkheimer. Dentre os outros novos membros estavam dois psicólogos, Eric Fromm e Wilhelm Reich, dois célebres promotores do feminismo e do matriarcado, e um jovem estudante de pós-graduação chamado Herbert Marcuse.

Avanços no marxismo cultural

Com a ajuda desse novo sangue, Horkheimer fez três grandes avanços no desenvolvimento do marxismo cultural. Primeiro, ele derrubou a visão de Marx de que a cultura era meramente parte da “superestrutura” da sociedade, que era determinada por fatores econômicos. Ele disse, ao contrário, que a cultura era um fator independente e muito importante para moldar a sociedade.
Segundo, mais uma vez contrariando Marx, ele anunciou que no futuro, a classe trabalhadora não seria a agente da revolução. Ele deixou em aberto a questão de quem desempenharia esse papel, questão essa que foi respondida por Marcuse em 1950.
Terceiro, Horkheimer e outros membros da Escola de Frankfurt decidiram que a chave para destruir a cultura ocidental era cruzar Marx com Freud. Eles argumentaram que, da mesma forma que os trabalhadores eram oprimidos pelo capitalismo, assim todos, sob a cultura ocidental, viviam em um estado constante de repressão psicológica. “Liberar” todos dessa opressão se tornou um dos principais objetivos do marxismo cultural. E ainda mais importante, eles se deram conta de que a psicologia lhes oferecia uma ferramenta muito mais poderosa do que a filosofia para destruir a cultura ocidental: o condicionamento psicológico.
Hoje em dia, quando os marxistas culturais de Hollywood querem “normalizar” algo como o homossexualismo (“liberando”, portanto, as pessoas da “repressão”), eles colocam um programa de TV atrás do outro em que único homem branco aparentemente normal é um homossexual. É assim que o condicionamento psicológico funciona: as pessoas absorvem lições que os marxistas culturais querem que eles aprendam sem sequer perceberem que estão sendo ensinados.
A Escola de Frankfurt estava prestes a criar o politicamente correto. Mas, de repente, o destino interveio. Em 1933, Adolf Hitler e o Partido Nazista assumiu o poder na Alemanha, onde a Escola de Frankfurt estava localizada. Uma vez que a Escola era marxista, ideologia odiada pelos nazistas, e todos os membros da instituição eram judeus, eles decidiram deixar a Alemanha. Em 1934, a Escola de Frankfurt, incluindo os seus principais membros da Alemanha, foram reestabelecidos na cidade de Nova York, com a ajuda da Universidade de Columbia. E logo o seu foco foi transferido de destruir a cultura ocidental tradicional na Alemanha para fazê-lo nos Estados Unidos. Isso também se mostrou bastante bem sucedido.

Novos avanços

Aproveitando-se da hospitalidade americana, a Escola de Frankfurt logo deu prosseguimento ao seu trabalho intelectual de criar o marxismo cultural. Para as suas conquistas anteriores na Alemanha, ela acrescentou esses novos avanços.

A Teoria Crítica

Para cumprir o seu propósito de “negar” a cultura ocidental, a Escola de Frankfurt desenvolveu uma poderosa ferramenta chamada de “teoria crítica”. O que era essa teoria? A teoria era criticar. Ao sujeitar todas as instituições tradicionais, incluindo a família, a críticas persistentes e infindáveis (a Escola de Frankfurt teve o cuidado de nunca definir o que ela defendia, apenas o que reprovava), ela esperava destruí-las. A Teoria Crítica é a base dos departamentos de “estudos” que agora existem nas faculdades e universidades americanas. Não é de se surpreender que esses departamentos são a origem do politicamente correto acadêmico.

Estudos sobre o Preconceito

A Escola de Frankfurt buscou definir as atitudes tradicionais em todos os aspectos como “preconceitos” em uma série de estudos acadêmicos que culminaram no livro altamente influente de Adorno “The Authoritarian Personality” ("A Personalidade Autoritária”), publicado em 1950. Eles inventaram uma fraude chamada “escala F”, que buscava associar ao fascismo as crenças tradicionais com relação à moral sexual, às relações entre homens e mulheres e às questões familiares. Hoje em dia, o termo politicamente correto favorito contra qualquer um que discorda deles é “fascista”.

Dominação

A Escola de Frankfurt divergiu mais uma vez do marxismo, que argumentava que toda a história era determinada por quem possuía os meios de produção. Em vez disso, disseram que a história era determinada pelos grupos (definidos como homens, mulheres, raças, religiões, etc.) que tinham poder ou “domínio” sobre outros grupos. Alguns grupos, principalmente o de brancos do sexo masculino, foram rotulados de “opressores”, enquanto que outros grupos foram definidos como “vítimas”. As vítimas eram automaticamente boas e os opressores ruins, levando em conta apenas o grupo do qual faziam parte, independente do comportamento pessoal.
Embora fossem marxistas, os membros da Escola de Frankfurt também se utilizaram de Nietzsche (outra pessoa que eles admiravam por sua oposição à moral tradicional era Marquês de Sade). Eles incorporaram no seu marxismo cultural o que Nietzsche chamou de “transmutação de todos os valores”. O que isso significa, em linguagem clara, é que todos os antigos pecados se tornam virtudes, e todas as antigas virtudes se tornam pecados. O homossexualismo é bom e belo, mas qualquer um que pense que os homens e mulheres devem ter papéis sociais diferentes é um “fascista” malvado. É isso que o politicamente correto agora ensina às crianças nas escolas públicas pelo país. (A Escola de Frankfurt escreveu sobre a educação pública americana. Ela disse que não importava se as crianças estavam aprendendo quaisquer habilidades ou fatos. Tudo o que importava era que elas se formassem nas escolas com as “atitudes” certas em relação a determinadas questões.)

Mídia e entretenimento

Liderados por Adorno, a Escola de Frankfurt inicialmente se opôs à indústria cultural, que consideravam uma cultura “comoditizada”. Mas depois eles começaram a escutar o que dizia Walter Benjamin, um amigo próximo de Horkheimer e Adorno, que argumentava que o marxismo cultural poderia fazer um uso muito eficiente de ferramentas como o rádio, os filmes e mais tarde a televisão para condicionar psicologicamente o seu público. A visão de Benjamin prevaleceu, e Horkheimer e Adorno passaram os anos da Segunda Guerra Mundial em Hollywood. Não é por acaso que a indústria do entretenimento é agora a arma mais poderosa do marxismo cultural.

O crescimento do marxismo nos Estados Unidos

Após a Segunda Guerra Mundial e a derrota dos nazistas, Horkheimer, Adorno e a maioria dos outros membros da Escola de Frankfurt retornaram à Alemanha, onde o Instituto se reestabeleceu em Frankfurt com a ajuda das forças de ocupação americanas. O marxismo cultural na época se tornou a ideologia não oficial, mas predominante na República Federal da Alemanha.
Entretanto, o inferno não se esqueceu dos Estados Unidos. Herbert Marcuse ficou nos EUA e começou a traduzir todos os difíceis escritos acadêmicos de outros membros da Escola de Frankfurt para uma linguagem mais simples que os americanos entenderiam facilmente. Seu livro “Eros e Civilização” utilizou o cruzamento feito pela Escola de Frankfurt de Marx e Freud para argumentar que, se nós “libertarmos o Eros não procriador” por meio da “perversidade polimórfica”, poderíamos criar um paraíso de pura diversão e nenhum trabalho. “Eros e Civilização” se tornou um dos principais textos da Nova Esquerda na década de 60.
Marcuse também ampliou o trabalho intelectual da Escola de Frankfurt. No início da década de 30, Horkheimer havia deixado em aberto a questão de quem iria substituir a classe trabalhadora como agente da revolução marxista. Na década de 50, Marcuse respondeu a essa pergunta, dizendo que seria uma coalizão de estudantes, negros, mulheres feministas e homossexuais: o coração da rebelião estudantil da década de 60 e dos sagrados “grupos de vítimas” do atual politicamente correto. Marcuse mais tarde tomou uma das palavras favoritas do politicamente correto, “tolerância”, e lhe deu um novo significado. Ele definiu a “tolerância libertadora” como a tolerância para todas as ideias e movimentos que surgiam da esquerda, e intolerância como todas as ideias e movimentos que surgiam da direita. Quando você vê hoje os marxistas culturais pedirem “tolerância”, eles querem dizer a “tolerância libertadora” de Marcuse (assim como quando pedem "diversidade", querem dizer uniformidade de crença na sua ideologia).
A rebelião estudantil dos anos 60, motivada em grande parte pela oposição ao serviço militar obrigatório para a Guerra do Vietnã, deu a Marcuse uma oportunidade histórica. Talvez como o “guru” mais famoso da Escola de Frankfurt, ele injetou seu marxismo cultural na geração dos Baby Boomers. É claro, eles não entendiam do que realmente se tratava. Pelo princípio que existia desde o início do Instituto, Marcuse e outros poucos do círculo não anunciavam o politicamente correto e o multiculturalismo como uma forma de marxismo. Mas o efeito foi devastador: uma geração inteira de americanos, principalmente a elite universitária, absorveu o marxismo cultural como deles, aceitando a tóxica ideologia que buscava destruir a cultura tradicional e a fé cristã dos EUA. Aquela geração, que domina todas as instituições de elite nos EUA, agora trava uma guerra sem fim contra todas as crenças e instituições tradicionais. Em grande parte, eles ganharam essa guerra. A maior parte da cultura tradicional dos EUA está em ruínas.

Uma contra-estratégia

Agora você sabe quem roubou nossa cultura. A questão é: o que nós, como cristãos e conservadores culturais, faremos a respeito?
Podemos escolher entre duas estratégias. A primeira é tentar retomar as instituições existentes (as escolas públicas, as universidades, a mídia, a indústria do entretenimento e a maior parte das grandes igrejas) dos marxistas culturais. É o que eles esperam que tentemos fazer, e estão preparados para isso; estaríamos com nada além de uma pequena voz e poucos recursos comparados aos deles, fazendo uma investida frontal contra posições defensivas de prontidão. Qualquer soldado pode lhe dizer que isso quase sempre leva a: derrota.
Há outra estratégia, mais promissora. Podemos nos separar, junto com nossas famílias, das instituições que os marxistas culturais controlam e construir novas instituições para nós, que nos reflitam e nos ajudem a recuperar a cultura ocidental tradicional.
Há muitos anos, meu colega Paul Weirich escreveu uma carta aberta ao movimento conservador sugerindo essa estratégia. Embora a maioria dos outros líderes conservadores (republicanos, melhor dizendo) hesitassem, a carta ressoou intensamente entre os conservadores de base. Muitos deles já fazem parte de um movimento para se separar da cultura corrupta dominante e criar instituições paralelas: o movimento de educação escolar em casa. Movimentos similares estão começando a oferecer alternativas sólidas em outros aspectos da vida, incluindo movimentos para promover pequenas fazendas familiares (geralmente orgânicas) e para desenvolver mercados comunitários voltados para os produtos dessas fazendas. Se o lema do Admirável Mundo Novo é “Pensar globalmente, agir localmente”, o nosso deveria ser “Pensar localmente, agir localmente”.
Portanto, a nossa estratégia para desfazer o que o marxismo cultural fez para os EUA tem um certo paralelo com a sua própria estratégia, da forma como expôs Gramsci décadas atrás. Gramsci convocou os marxistas para empreender uma “longa marcha nas instituições”. Nossa contra estratégia deveria ser uma longa marcha para criar as nossas próprias instituições. Isso não acontecerá rapidamente, ou facilmente. Será um trabalho de gerações, assim como foi o deles. Eles foram pacientes, pois sabiam que as “forças motrizes da história” estavam do lado deles. Não podemos ser igualmente pacientes e perseverantes sabendo que o Criador da História está do nosso?
Traduzido por Luis Gustavo Gentil do artigo do WND: “Who stole our culture?

terça-feira, 17 de julho de 2012

A “retratação” de Spitzer sobre seu estudo de mudança de orientação sexual: o que significa?

Dr. Christopher H. Rosik
 
(NARTH.com) — Tem chamado muita atenção ultimamente a recente “retratação” do médico Robert Spitzer sobre o seu importante estudo sobre a mudança de orientação sexual (Spitzer, 2003a). As aspas em “retratação” são propositais, pois o que aconteceu não deveria ser caracterizado como retratação. Embora essa reviravolta agora seja um dos assuntos favoritos dos que se opõem às terapias reparativas, a linguagem da retratação reflete um discurso politicamente motivado, e não uma análise científica. O objetivo do presente trabalho é ajudar as pessoas que se encontram desorientadas pelas ações de Spitzer e pelo frenesi da mídia em noticiá-las a entender o que realmente aconteceu. Esbocei abaixo alguns pontos chave que parecem ter sido perdidos na utilização partidária do ocorrido.
Robert Spitzer
1. Spitzer não se retratou do seu estudo. O termo apropriado para o que Spitzer fez está no título da sua recente carta de desculpas: Ele reavaliou a própria interpretação (Spitzer, 2012). Ao que parece, ele originalmente queria se retratar do estudo de 2003, mas o editor do periódico em que o estudo foi publicado, Dr. Zenneth Zucker, negou o pedido. Zucker foi citado com relação à sua troca de mensagens com Spitzer da seguinte forma:
Você pode se retratar de dados analisados incorretamente; para fazer isso, você publica uma errata. Você pode se retratar de um artigo se os dados forem falsificados, ou a própria redação se retrata caso o editor tenha ciência do fato. Da forma como entendo, ele [Spitzer] só está dizendo, dez anos depois, que ele quer se retratar da sua interpretação dos dados. Bem, provavelmente teríamos que retratar centenas de trabalhos científicos com relação a interpretação, e isso nós não fazemos. (Dreger, 2012)
O que Zucker está dizendo, basicamente, é que não há nada no método científico do estudo que justifique uma retratação, então tudo o que resta é mudar sua interpretação das descobertas, que é o que Spitzer parece ter feito.
2. A mudança de interpretação de Spitzer se baseia na sua nova crença de que os relatos de mudança na sua pesquisa não eram confiáveis. Agora ele alega que os testemunhos de mudanças dos participantes eram “autoengano ou pura mentira” (Spitzer, 2012). Ao tomar essa posição, Spitzer se alinha aos críticos originais do estudo. Quando o estudo original foi publicado, análises foram encomendadas e publicadas na mesma época. Dentre os que questionaram a confiabilidade dos relatos pessoais das mudanças escavam muitos opositores conhecidos da terapia reparativa: A. Lee Beckstead, Helena Carlson, Kenneth Cohen, Ritch Savin-Williams, Gregory Herek, Bruce Rind e Roger Worthington.
3. A discussão com relação à credibilidade dos relatos de mudanças nos participantes continua até hoje. Lembre-se de que nada a respeito do método científico da pesquisa de Spitzer era falha. Assim como todos os esforços científicos, a metodologia tinha limitações, mas um argumento lógico para aceitar a validade desses relatos foi apresentado na época, e se mantem até hoje. Na época em que o estudo foi publicado, Spitzer (2003a) relatou, “...houve uma clara redução em todas as medições. Isso não foi apenas nas três medições de comportamento sexual visível e identidade sexual... mas também as sete variáveis que avaliam a orientação sexual propriamente dita” (p. 410). Além disso, 119 dos 200 participantes relataram alcançar um “bom funcionamento heterossexual”, definido em termos de aumento da satisfação em condutas sexuais com o sexo oposto e redução da fantasia com pessoas do mesmo sexo.
Entre os analistas que concordaram com a interpretação original de Spitzer, Wakefield (2003) observou que, “...presumir sem provas de que os relatos de mudanças devem ser fraudulentos foge à pergunta sobre se a mudança às vezes ocorre" (p. 457). O próprio Spitzer (2003b) respondeu às críticas observando:
Portanto, as críticas estão corretas ao declararem que uma quantidade considerável de respostas enviezadas poderia ter ocorrido, mas ela certamente não se mostrou presente. Eles também não levantaram nenhum ponto nos resultados do estudo que sugeriram respostas tendenciosas. Reconheço que um viés certamente poderia ter ocorrido, mas julgo difícil de acreditar que isso pode explicar todas as mudanças relatadas... Certamente, se houvesse um viés, poderia-se esperar que os voluntários (assim como seus cônjuges) ficariam motivados a fazer relatos especialmente apaixonados sobre o funcionamento conjugal. Não foi o que aconteceu. (p. 471)
É curioso que o pedido de desculpas de Spitzer (2012) pareça insinuar que ele anteriormente havia alegado que sua pesquisa provava a eficácia das terapias reparativas. Como foi entendido na época, o projeto do estudo de Spitzer garantiu que sua pesquisa não provasse em caráter definitivo a eficácia dessas terapias. Ele certamente não provou que todos os homossexuais podem mudar sua orientação sexual, nem que ela é simplesmente uma escolha. O fato de que algumas pessoas tenham inapropriadamente chegado a tais conclusões parece ser um fator determinante para a reavaliação de Spitzer. Mas ainda assim a questão interpretativa fundamental foi e é reduzida a uma questão de plausibilidade: Dadas as limitações do estudo, é plausível que alguns participantes da terapia raparativa tenham relatado mudanças verdadeiras?
Apesar de todo esse alarido recente da mídia, nada realmente mudou na escolha interpretativa que se faz com relação às limitações dos relatos pessoais nesse estudo. Ou todos os relatos sobre todos os graus de mudança de todos os participantes e seus companheiros são autoenganos e/ou falsificações deliberadas, ou eles sugerem que é possível que alguns indivíduos de fato passem por mudanças nas dimensões da orientação sexual. Muitas pessoas podem discordar sobre qual dessas conclusões interpretativas elas favorecem, mas certamente não é anticientífico ou irracional continuar a acreditar que o estudo apoia a plausibilidade das mudanças.
4. Existe um padrão duplo não declarado nos relatórios de reavaliação de Spitzer. A provável influência de fatores políticos e outros não científicos na forma como a reavaliação de Spitzer está sendo retratada pode ser percebida em quais relatos pessoais do estudo recebem projeções favoráveis e quais são isolados. Yarhouse (2003) observou essa falta de coerência na época do estudo:
Relatos de memória desse tipo podem não ser confiáveis. Mas, na verdade, boa parte do que sabemos sobre experiências LGB, incluindo teorias sobre a etiologia da orientação sexual e estudos sobre o desenvolvimento e a síntese da identidade sexual é baseada em estudos retroativos feitos por meio de relatos de memória. Sempre que os proponentes da hipótese biológica da etiologia do homossexualismo citam o estudo de Bell et al. (1981), estão se referindo a um estudo que utilizou lembranças retroativas. O estudo de Shidle e Schroeder (2002) também se baseou nelas, e está sujeito ao mesmo tipo de crítica. (p. 462)
Spitzer (2003b) fez observações similares ao defender suas descobertas, indicando que características de demanda teriam influenciado os relatos dos participantes em outras pesquisas relacionadas:
Esse estudo tinha basicamente o mesmo planejamento e uma estratégia de recrutamento de voluntários ex-gays parecidos com os estudos de Beckstead (2001) e Shidlo e Schroeder (2002). Isso levanta a questão de por que tão poucos voluntários deles deram respostas em consonância com uma mudança de orientação sexual, como deram a maioria dos voluntários do meu estudo. A possibilidade de um viés do pesquisador deve ser considerada. (p. 471)
Uma aceitação triunfal costuma se seguir a publicações de relatos que sugerem que existem danos associados a terapias reparativas, equivalências entre a paternidade homossexual e heterossexual ou outros focos que se adequam às narrações preferidas dos ativistas homossexuais. É lamentável, mas não surpreendente, que relatos de mudanças de orientação sexual sofrem um duro ceticismo enquanto que outros dados envolvendo relatos pessoais, como os de Shidlo e Schroeder (2002) parecem ser concretizados como fatos universais, mesmo sofrendo de limitações similares. Se o estudo de Spitzer for rejeitado por seu uso de relatos pessoais, não deveriam as pesquisas metodologicamente equivalentes contra as terapias reparativas receberem também uma recepção cética? Embora a imparcialidade científica demandasse isso, os interesses políticos claramente não.
5. Contextos pessoais e sociopolíticos podem fornecer um discernimento melhor sobre a reavaliação de Spitzer. Uma vez, anos atrás, conversei brevemente com o dr. Spitzer por telefone logo após a publicação de sua pesquisa. Ele pareceu ser um homem gentil e compassivo, que exemplificava o espírito da genuína curiosidade científica. Sem dúvida ele lamentava o fato de alguns terem utilizado seu trabalho para fazer alegações insustentáveis sobre a eficácia de terapias reparativas, e isso pode ter resultado em expectativas frustradas por alguns clientes gays e lésbicas. No entanto, certamente é possível que outras preocupações além do bem-estar humano estivessem em jogo no seu pedido de desculpas.
É difícil imaginar a queda do status profissional que Spitzer sofreu em virtude do estudo. Em um período muito curto de tempo, seu status dentro da profissão mudou de um pioneiro heroico dos direitos homossexuais para o de um porta-voz involuntário para os praticantes de terapias reparativas, considerados por muitos colegas como moralmente repreensíveis. Antes e depois da publicação do estudo, Spitzer confirmou que estava recebendo uma grande quantidade de mensagens de ódio direcionadas a ele (Spitzer, 2003b; Vonholdt, 2000). Uma década sendo duramente criticado por amigos, colegas e pela comunidade gay que já o reverenciou certamente afetaria qualquer um de nós.
Spitzer atualmente sofre de doença de Parkinson e está no fim da vida, o que torna compreensível que ele reflita sobre o tipo de legado que quer deixar. Herói ou vilão, ícone ou renegado: qual imagem uma pessoa iria querer deixar? Não posso dizer com certeza que essas considerações não científicas influenciaram a decisão de Spitzer de se “retratar” do estudo, mas posso dizer que é difícil para mim conceber como elas não influenciaram. Spitzer provavelmente conhece infinitamente mais gays e lésbicas do que indivíduos que relatam mudança na orientação sexual. Isso pode ter tornado difícil para ele ver que, ao tentar reparar o dano que gays e lésbicas da sua rede profissional alegaram ter sofrido em virtude do estudo, ele simultaneamente causou dano aos participantes do mesmo estudo que experimentaram mudanças e que agora estão sendo acusados de ingênuos ou mentirosos. Tudo isso serve para ressaltar quão pessoal e subjetiva a prática do discurso científico social pode ser quando o assunto está enredado em um grande debate sociopolítico.

Conclusão

Uma abordagem puramente científica às limitações da pesquisa de Spitzer seria conduzir um estudo de prognóstico mais rigoroso, algo que ele e outros vêm pregando o tempo todo (Spitzer, 2003a, 2003b; Jones, Rosik, Williams, & Byrd, 2010). Mesmo o Relatório da Força-Tarefa da Associação Americana de Psicologia sobre Respostas Terapêuticas Apropriadas à Orientação Sexual (APA Task Force’s Report on Appropriate Therapeutic Responses to Sexual Orientation, American Psychological Association, 2009) pediu para que esses estudos fossem assegurados. Infelizmente, a realidade parece ser que a AAP e outras instituições em posição de financiar e conduzir pesquisas de prognóstico em terapias reparativas, em conjunto com a NARTH e outras praticantes de terapias reparativas, parecem não ter interesse em fazê-lo. Eles não têm nada a ganhar com tais pesquisas, uma vez que resultados desfavoráveis às terapias reparativas não iriam mudar consideravelmente seu atual ceticismo, enquanto que resultados favoráveis a elas seriam para eles, do ponto de vista das relações públicas e da ordem pública, um desastre.
Duvido que Spitzer iria se retratar da sua avaliação que reconhece a necessidade de estudos posteriores (Spitzer, 2003b):
Dado o custo e a complexidade desse tipo de estudo, além da visão atual dos profissionais de saúde mental quanto aos benefícios e riscos da terapia afirmativa de gênero, tal estudo não acontecerá em um futuro próximo. Isso é lamentável devido às verdadeiras questões levantadas, embora declaradamente não revolvidas, por este estudo (p. 472). 472).
Portanto, em vez de mais e melhores estudos sobre terapias reparativas, vemos ativistas e seus apoiadores na mídia se baseando em uma mudança de interpretação para tentar evitar um legítimo debate científico. E às favas com a nuance, o contexto e a análise equilibrada. O que parece mais patente é a utilização da reavaliação de Spitzer para forçar a aceitação e o silêncio dos defensores de terapias reparativas. Será realmente absurdo suspeitar que a ciência está sendo feita refém das agendas políticas?
Espero sinceramente que essa breve análise ajude a esclarecer o que aconteceu e o que não aconteceu quando Spitzer se “retratou" do seu estudo anterior. Nenhuma nova descoberta científica foi feita para descreditar as terapias reaparativas. Nenhuma falha metodológica grave foi identificada. Os mesmos argumentos utilizados em favor ou contra o estudo ainda estão em voga. O debate legítimo sobre o significado do estudo ainda pode e deve ser feito. Nada mudou a não ser o fato de Spitzer ter revisto sua interpretação anterior em razão do que é provavelmente uma série de razões compreensíveis mas inerentemente não científicas. É direito dele de fazê-lo, mas não deixe ninguém lhe dizer que, ao fazê-lo, ele descreditou o próprio estudo ou interpretações alternativas mais favoráveis aos que relatam mudanças no seu comportamento e na sua atração com pessoas do mesmo sexo.
Referências
American Psychological Association (2009). Report of the APA task force on appropriate therapeutic responses to sexual orientation. Disponível em: http://www.apa.org/pi/lgbt/resources/therapeutic-response.pdf
Beckstead, A. L. (2001). Cures versus choice: Agendas in sexual reorientation therapy. Journal of Gay and Lesbian Psychotherapy, 5(3/4), 87-115.
Bell, A. P., Weinberg, M. S., & Hammersmith, S. K. (1981). Sexual preference: Its development in
men and women. Bloomington, IN: Indiana University Press.
Dreger, A. (2012, April 11). How to ex an “ex-gay” study. [Blog]. Disponível em: http://psychologytoday.com/blog/fetishes-i-dont-get/201204/how-ex-ex-gay-study
Jones, S. L., Rosik, C. H., Williams, R. N., & Byrd, A. D. (2010). A Scientific, Conceptual, and Ethical Critique of the Report of the APA Task Force on Sexual Orientation. The General Psychologist, 45(2), 7-18. Disponível em: http://www.apa.org/divisions/div1/news/fall2010/Fall%202010%20TGP.pdf
Shidlo, A., & Schroeder, M. (2002). Changing sexual orientation: A consumers’ report. Professional Psychology: Research and Practice, 33, 249-259.
Spitzer, R. L. (2003a). Can some gay men and lesbians change their sexual orientation? 200 participants reporting a change from homosexual to heterosexual orientation. Archives of Sexual Behavior, 32(5), 403-417.
Spitzer, R. L. (2003b). Reply: Study results should not be dismissed and justify further research on the efficacy of sexual reorientation therapy. Archives of Sexual Behavior, 32(5), 469-472.
Spitzer, R. L. (2012). Spitzer reassesses his 2003 study of reparative therapy of homosexuality [Carta ao editor]. Archives of Sexual Behavior. Advance online publication. doi: 10.1007/s10508-012-9966-y
Wakefield, J. C. (2003). Sexual reorientation therapy: Is it ever ethical? Can it ever change sexual orientation? Archives of Sexual Behavior, 32(5), p. 457-459.
Vonholdt, C. R. (2001). Interview with Robert L. Spitzer: Homosexuality and the reality of change. Bulletin of the German Institute for Youth and Society, 1, 33-36. Disponível em http://www.dijg.de/english/homosexuality-reality-of-change/
Yarhouse, M. A. (2003). How Spitzer’s study gives a voice to the disenfranchised within a minority group. Archives of Sexual Behavior, 32(5), 462-463.
Traduzido por Luis Gustavo Gentil do artigo do LifeSiteNews: “Spitzer’s ‘retraction’ of his sexual orientation change study: what does it really mean?